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A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna

O livro A Pedra do Reino – como é conhecido popularmente – , de Ariano Suassuna, também pode ser chamado por outros 2 títulos, que são O Romance d’A Pedra do Reino ou, seu nome original, O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta.

Publicada em 1971, a obra é uma narrativa sobre construção. A  construção do povo brasileiro através dos professores do protagonista. A construção da política latina por meio de sua relação com o Exército e a Igreja. A construção da República Nova, com a participação dos integralistas e do próprio Prestes. E a construção de um livro como obra-prima do autor.

Por fim, é a construção do mundo de Suassuna como um todo coeso, por vezes sútil, com elementos de um “medievalismo sertanejo”, por vezes, nem tanto, com aparições de personagens de outras obras do autor. O livro em si é cíclico e não linear, com uma narrativa que parece uma colcha de retalhos inacabada, mas bem costurada.

DAQUI DE CIMA, no pavimento superior, pela janela gradeada da Cadeia onde estou preso, vejo os arredores da nossa indomável Vila sertaneja. O Sol treme na vista, reluzindo nas pedras mais próximas.

Da terra agreste, espinhenta e pedregosa, batida pelo Sol esbraseado, parece desprender-se um sopro ardente, que tanto pode ser o arquejo de gerações e gerações de Cangaceiros, de rudes Beatos e Profetas, assassinados durante anos e anos entre essas pedras selvagens, como pode ser a respiração dessa Fera estranha, a Terra — esta Onça-Parda em cujo dorso habita a Raça piolhosa dos homens.

Pode ser, também, a respiração fogosa dessa outra Fera, a Divindade, Onça-Malhada que é dona da Parda, e que, há milênios, acicata a nossa Raça, puxando-a para o alto, para o Reino e para o Sol.

Resumo da obra

A Pedra do Reino, Ariano Suassuna

Fonte: Reprodução

A história tem início na década de 1930, na vila de Taperoá. O próprio protagonista, Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna é quem se apresenta ao leitor. Ele atribui a si próprio um sem-número de honrarias, entre as quais o título de legítimo monarca do país. Também introduz os conflitos que se desenrolarão no decorrer do romance, envolvendo o Rapaz do Cavalo Branco e sua própria família.

O livro é dividido em folhetos, sendo que essa apresentação, cheia de pompa, ocorre no 1° folheto. No 2°, temos a chegada da comitiva do dito Rapaz ao local onde acontece a trama. Após o desfile de armas e brasões, o grupo é emboscado por cangaceiros, dando início à ação e aos episódios violentos do livro.

O tiroteio começou de maneira um tanto inusitada. Na grimpa do lajedo, erguendo-se de trás da pedra, apareceu de repente um Negro moço, desempenado, vestido de cáqui, encruzado de cartucheiras e de chapéu de couro à cabeça. Erguendo um rifle bem alto no ar com a mão direita, o Negro cantou uma estrofe desafiadora, rindo com os dentes alvos e perfeitos que luziam no Sol:

“Filha de branco,
linda e clara como a Lua!
eu vou pegar você nua,
mas não é para casar!
É pra lascar,
que eu me chamo é Ludugero!
Eu nasci Negro e só quero
moça branca pra estragar!”

Acabada a estrofe e aproveitando o momento de estupefação causado por seu aparecimento, o Negro Ludugero — ou Ludugero Cobra-Preta, como também era conhecido — deu um rincho de jumento e, levando o rifle à cara, atirou.

O livro conta com 5 partes, sendo a 1 ª (A Pedra do Reino) usada por Dom Pedro Dinis para explicar a razão de sua autoproclamada majestade. Após a narrativa da emboscada, Dinis relata como seus antepassados reinaram na Pedra do Reino (história provavelmente baseada na seita sebastianista de São José do Belmonte, em Recife), e como a nobreza chegou à sua pessoa. No entanto, Dinis se revela um covarde, pouco afeito às vidas e mortes violentas de seus antepassados, preferindo trilhar um caminho apartado de tamanha truculência.

Os Emparedados, a 2 ª parte do livro, é focada mais no desenvolvimento do personagem do que na história propriamente dita. Aqui Dinis discorre sobre sua formação intelectual e acadêmica. Dom Pedro tivera 2  tutores, o professor Clemente Hará, cujo alinhamento político pende mais à esquerda (sendo, inclusive, comunista), é negro, formado em Direito, ateu realista e materialista, seguidor das culturas locais e dos grandes filósofos teóricos. Fora adotado e, posteriormente, educado por um padre, sem ter qualquer aspiração à nobreza.

Precisava, porém, descobrir com segurança, a que gênero me dedicar. Lembrei-me, então, das aulas de Retórica, dadas por Monsenhor Pedro Anísio Dantas, no “Seminário”, e passei a examinar gênero por gênero, com ajuda do Dicionário. Quando cheguei na palavra “romance”, tive um sobressalto: era o único gênero que me permitia unir, num livro só, um “enredo, ou urdidura fantástica do espírito”, uma “narração baseada no aventuroso e no quimérico” e um “poema em verso, de assunto heroico”.

Por outro lado, o professor Samuel Wandernes é fruto de uma longa linhagem de senhores de engenho pernambucanos, com feições nórdicas e também formado em Direito (porém, ao contrário de Clemente, que era advogado, Samuel atuava como promotor), filiado ao movimento integralista, apoiado por suas crenças católicas. Tinha por paixão as influências europeias na formação da identidade brasileira, bem como a poesia e os romances medievais.

As atitudes dos professores para com Dinis parecem conflitantes, alternando entre a amizade e a indiferença. A influência de ambos na formação de Pedro o levou a se declarar (e, por diversas vezes, agir) como um meio termo entre as ideias opostas dos dois, chegando até a se apresentar como um “monarquista de esquerda”, responsável por manter a igualdade entre os cidadãos sob sua regência.

Pedro devolve o tratamento ambíguo que recebe em igual medida, oscilando entre o respeito, a admiração e o desprezo. Dinis se vê como superior a eles, às vezes retratados como parasitas sociais cheios de falhas morais. Seu complexo de superioridade chegas às vias de Pedro se considerar o maior gênio do Brasil, talvez do mundo inteiro. Essa sua personalidade conflituosa pode ser uma alegoria à própria formação do povo brasileiro.

Em meio a todo esse debate de ideias, Dinis explica como é possível classificar-se como rei e covarde ao mesmo tempo. Segundo o narrador, o que faz um rei não são seus atos de bravura ou um número grande de seguidores, e sim um castelo, que não precisa existir no plano material, mas ser algo grandioso sobre o qual o monarca possa se estabelecer, como uma obra-prima.

No caso de Dinis, é o próprio romance que ele está narrando. A obra é constituída de citações de diversos autores, em prosa e poesia, bem como dos ensinamentos de seus professores, usados pelo protagonista como fontes para criar não somente sua obra-prima, mas também a obra-prima de toda a raça humana. Retornando à ação do livro, na 3 ª parte (Os Três Irmãos Sertanejos), o protagonista narra os eventos que o levaram a ser encarcerado.

ASSIM, TUDO ESTAVA decidido, todos os alicerces traçados, para quando chegasse o momento. Terminou a explicação acadêmica e já se entendem os motivos que me levaram a erguer este meu Castelo perigoso, literário, espinhento e pedregoso. Posso voltar, portanto, à chegada do Rapaz-do-Cavalo-Branco e aos motivos da Cadeia em que me acho trancafiado.

Era aquela fatídica Quarta-Feira de Trevas, 13 de Abril deste nosso ano de 1938. Na véspera, eu fora intimado por nosso Oficial de Justiça, Severino Brejeiro, que me entregara um bilhete do Juiz-Corregedor, convidando-me a comparecer perante ele, a fim de depor no inquérito aberto sobre todos aqueles acontecimentos, isto é, sobre tudo aquilo que se ligava ao assassinato de meu Padrinho e à chegada, a Taperoá, do Rapaz-do-Cavalo-Branco.

Nessa parte, temos as chamadas visagens de Dinis, através das quais conhecemos melhor o protagonista. Ao contrário do que fomos levados a crer no início do romance, Pedro não é um pobre coitado, perdido em delírios de grandeza, tentando simular uma glória passada que nunca existiu.

Mas sim ele se mostra o homem mais influente da pequena vila, agindo sobre todas as atividades do local, desde as festas religiosas até os negócios mais mundanos e profanos. Mesclando ação e desenvolvimento do personagem, vemos o lado mais humano de Dinis quando este conversa com Pedro Beato, esposo de Maria Safira, sua amante. A figura quase divina do velho beato opõe-se a outras mais diabólicas, como, por exemplo, a Moça Caetana, uma representação da própria morte.

Outro ponto a se destacar aqui é o respeito que Dinis tem pelo Beato. Não à toa os 2 personagens têm o mesmo nome. Pedro Beato é a personificação de Pedro Dinis sem as suas falhas e ressentimentos. Essas reflexões filosóficas e místicas são interrompidas quando Dinis é convocado à delegacia, para prestar um depoimento.

Após ser confrontado com uma história escabrosa que culmina no assassinato de um bebê, Dinis vê-se na encruzilhada entre o arrependimento e redenção ou o prosseguimento de sua jornada de negligência até a danação eterna. Escolha essa que será feita logo em seguida, em um episódio com Maria na igreja da vila. Depois disso, vemos Dinis com o juiz e a escrivã, depondo em um processo reaberto sobre o assassinato de seu tio.

Os Doidos (4 ª parte) e A demanda do sangral (a última parte) nos contam melhor sobre o que Dinis começara a depor na parte 3, expondo a loucura de seu tio e o sequestro e assassinato de seu primo Sinésio, o Alumiado. A isso, somam-se as mudanças políticas de 1930 e o culto de Taperoá em volta do suposto retorno de Sinésio. Se o leitor ainda não percebeu, o irmão mais velho de Sinésio, Arésio, diz que política e religião tem uma relação muito mais porosa nesse lado do mundo.

QUANDO EU ACABEI de recitar esse enigmático “romance”, o Corregedor falou:

— Dom Pedro Dinis Quaderna, eu, se fosse o senhor, cortava essa versalhada da sua futura Epopeia, porque ela parece uma charada, uma espécie de logogrifo em verso!

— Pois é exatamente por isso que ela deve entrar, Sr. Corregedor! Essa palavra que o senhor usou, “grifo”, é exatamente a prova de que esses versos são indispensáveis à minha Epopeia!

— Por quê? — perguntou ele, espantado.

— Por causa de Homero, Excelência! Não quero, nem devo, esconder a Vossa Excelência que, depois de conseguir da Academia Brasileira de Letras o título de “Gênio da Raça Brasileira”, pretendo disputar, no vasto Império da Literatura Universal, o cargo, também ainda vago, de “Gênio Máximo da Humanidade”!

Apresentadas como as 2 maiores forças da América Latina, política e religião se envolvem com disputas familiares, tesouros escondidos, romances trágicos e uma infinidade de nós que tendem a deixar essa teia de intrigas ainda mais confusa. Voltando à narrativa, Pedro é preso, acusado inclusive por tomar parte no ataque ao Rapaz.

O processo permanece aberto, assim como várias questões do próprio livro. Talvez o Rapaz do Cavalo Branco fosse Sinésio ressuscitado. Talvez a emboscada foi arquitetada por Pedro para se proclamar o único herdeiro da Pedra do Reino. O fato é que, após a  prisão, Pedro retorna à sua casa e finaliza seu livro, que é este que estamos lendo.

O livro é, como o próprio narrador havia falado no início, a Obra Máxima da Humanidade, mesmo sendo alterado várias vezes por aqueles que o leram, publicaram e divulgaram, adquirindo, assim, não só o aspecto de romance, mas também de lenda, modificada por todos que têm contato com a narrativa.

Tudo o que eu vinha pensando na minha doce embriaguez se juntou, então, num sonho só. Eu terminara minha Epopeia, minha Obra de pedra e cal, edificando, no centro do Reino, o Castelo e Marco sertanejo que tinha sido o sonho de toda a minha vida.

O Reino do Sertão se estendia, agora, sob um Sol acobreado de crepúsculo, esbraseado, cercado de nuvens cor de chumbo e orladas de fogo, um Sol que dourava as pedras e muralhas do Chapadão pedregoso, áspero e solitário, formigante de Peões, bispos, Rainhas, Reis, torres, cavalos e Cavaleiros — rudes Cavaleiros vestidos com armaduras de couro medalhadas, gibões, guarda-peitos e chapéus de couro estrelados, e acompanhados pelas belas Damas de copas e espadas que os amavam.

No meio do Reino, fincada sobre uma serra pedregosa e situada entre os dois rochedos iguais que lhe serviam de torres, a Catedral e castelo da minha Raça reluzia seus muros afortalezados, a que o Sol dava também reflexos acobreados, batendo nas pedras esquadrejadas, unidas com a argamassa do meu sangue.

A obra estava finda, motivo pelo qual ia haver uma cerimônia régia.

Estrutura da obra

Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, contém 85 folhetos (que representam capítulos), divididos em 5 partes, distribuídas em cerca de 600 páginas, dependendo da edição.

Sua estrutura é complexa, pois trata-se de um romance heroico, composto por diversas narrativas de ação, introduções pomposas e até mesmo poemas e versos. A metalinguagem também está presente, já que é um livro com muitas histórias, mas cujo foco principal é a escrita de um livro pelo protagonista. Sendo assim, é uma história dentro da história, uma narrativa de construção permanente da política e do folclore do Brasil.

Contexto Histórico

A obra se refere a fatos históricos da década de 1830, quando uma seita foi responsável por derramar muito sangue no Nordeste brasileiro. Mesmo ocorrendo um século antes, esses acontecimentos são o pano de fundo do misticismo e mistério que estão presentes na narrativa.

Também existe menção a outras passagens históricas do Brasil, como a luta entre o cangaço e o exército e a Guerra de Canudos, responsável por espalhar a filosofia sebastianista pelo sertão brasileiro. Assim, o autor constrói a narrativa inspirando-se nesses fatos e utilizando-os para compor sua epopeia.

— Que disparate que nada, Doutor Samuel! O senhor veja que o Major Optato Gueiros é homem ilustre, Major da Polícia e protestante, homem sério, incapaz de mentir!

Lutou contra Lampião, brigou no Ceará, perto do Crato do Prior do Crato, de modo que está muito escolado nessas Troias todas! Pois o Major jura, pela Hóstia e pelo cálice, que o nome do Príncipe Encoberto da Pedra do Reino era Dom Sebastião Barbosa!

É claro que estou falando do Rei Coberto no sacrário das pedras, porque os Reis que apareciam eram os bisavós, aqui, do nosso Dom Pedro Dinis Quaderna! E o senhor não se espante não, porque é mesmo assim que essas coisas são. É como eu dizia num verso que escrevi:

‘Com o C também soletro:
Canudos, Cebastião,
Cinésio, Çofrive, Certo,
Cilvestre, Cristo e Certão.
Morrem uns a bem dos outros:
e é assim que as coisas são!’

Relevância da obra

Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, é uma obra única e original na literatura brasileira. Ela trabalha com diversos aspectos históricos e utiliza-se de tradições indígenas, africanas e europeias, de vários tipos de texto e da metalinguagem.

Além disso, há a escrita precisa do autor, fazendo com que esse livro se torne uma obra tão profunda quanto Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ao abordar assuntos inerentes à condição humana através da misticidade e de acontecimentos históricos do sertão brasileiro.

AGORA, DE VOLTA da visita da Gruta, já perto do meio-dia, entre pedras e cactos espinhosos, vínhamos realizando uma “sessão a cavalo” típica. Tratava-se do problema dos “gênios das raças”, em geral, e do “gênio da raça brasileira”, em particular.

Samuel acabara de me explicar que “o gênio de uma raça era a pessoa que condensava em si, exaltadas e apuradas, as características marcantes do País”. Aquilo tocou fogo em meu sangue imediatamente, porque fora assim que eu me sentira naquele dia, na Pedra do Reino — como o Rei e a encarnação viva do Brasil.

Entendi, logo, que, se eu fosse declarado “Gênio da Raça Brasileira”, meu Castelo poético e perigoso faria de mim, não mais individualmente, mas de modo “oficial e selado pelo Governo”, Rei do Brasil! Era fundamental que, agora, ali mesmo, aqueles dois grandes homens me esclarecessem sobre tudo aquilo de “Gênio da Raça”, título que eu pressentia ligado às minhas aspirações mais profundas e secretas.

Boa leitura!

Fonte: Canal do Ensino

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